quinta-feira, 17 de maio de 2012

Voltando

Devagar vou retomando meus espaços.
Tô voltando pra essa casa, depois de algum tempo, passadas algumas mudanças.
Não enferrujo mais no escritório cinza, daquele prédio cinza, na cidade sem cor. Agora a vida tem mais cor, falta o dinheiro...Escolhas, meu bem, escolhas.
Agora tem ferro no meu sorriso, que anda dolorido, pra daqui a pouco ser um sorriso mais bonito.
Trago também os cabelos mais curtos e me sinto mais leve.
Conheci o paraíso outro dia, o mar era calmo e o céu azul, vou morar lá quando o tempo permitir.
Vi também um Chico, no palco colorido, cantando pra mim, pertinho de mim.
Me descobri na ancestralidade. Me descobri Jupiara, filha de Jupira e neta de Tupã.
Fiz novos amigos.
Estudo bastante, leio muito e quero dividir isso com vocês.
Vocês que talvez passem por aqui, talvez tenham interesse
Talvez não.
De qualquer maneira estou de volta e senti saudades...







sábado, 11 de fevereiro de 2012

As drogas e suas questões - Mário Deganelli

Os motivos pelos quais a pessoa se torna dependente do uso de drogas, sejam elas quais forem (licita ou ilícitas), estão muito mais ligados à falta de recursos – internos e/ou externos – do que às pretensas teorias que as apontam como vilãs-monstros que pode pegar qualquer um de nós. Não estou aqui negando o poder destrutivo das drogas e nem que umas tem mais poder viciante que outras. Estou atentando ao poder irreal e oportuno que se tem dado a elas. Falo em oportunismo porque é muito cômodo e conveniente legar ao dependente a culpa de ter sido fraco diante deste tal poder e ter se deixado capturar por ele numa relação que envolve apenas dois personagens – a droga e o indivíduo.
Em primeiro lugar um indivíduo ser humano, apesar de o termo aludir a isto, não é um ser que se constituiu individualmente; ao contrário, foi através de inter-relações que se formou e chegou até determinado ponto de sua história. Quando digo inter-relações o faço no sentido mais ampliado deste termo, ou seja, desde as relações que foram se estabelecendo em seus meios de convívio social até às que foram sendo estabelecidas com o consumo em geral. Só para explicar melhor sobre o quê estou falando basta pararmos quinze minutos de uma tarde qualquer e acompanharmos a programação das redes abertas de televisão para constatarmos a imensa oferta de soluções e receitas para lidar com os mais variados tipos de situações e problemas do nosso cotidiano – meios para emagrecer (relação mal resolvida com o que se come e com como se gasta a energia adquirida), meios para aprender a se relacionar com o marido, com a esposa, com o vizinho de condomínio, com os filhos, com o animal de estimação, com o sol, com o computador e tantas outras ajudas. Diante disso, fico a pensar se na verdade os seres humanos fracos e doentes são mesmo os dependentes, ou, pelo menos, “só” eles. Quando faço essa experiência, assistindo, inclusive programações que se julgam sérias e científicas tenho a nítida impressão (ou constatação) de que vivemos em uma dita sociedade que não prepara os seus indivíduos para a autonomia e para a responsabilidade em seus atos e escolhas. Ao contrário, parece-me oportuno, volto a falar, que os indivíduos se enxerguem incapazes de conduzir-se por suas próprias escolhas, para que as decisões que se pautam em interesses avessos à sua própria vida não sejam questionados, já que este empoderamento não lhe foi permitido. Daí é que criar monstros fictícios e dar a eles poderes extraordinários torna-se uma artimanha extraordinária. Não há algo ou alguém localizado contra quem lutar... o que há é um ser abstrato indestrutível contra o qual você pode apenas ficar muito alerta, já que a próxima vítima pode ser você ou alguém que você goste muito. E enquanto toda a sua preocupação está dividida entre correr atrás de suprir suas inapetências sociais ou lutar contra titãs maldosos que lhe roubarão a alma, outros grupos de seres humanos, localizados um pouco acima deste “bololô” social, engordam cada vez mais seus patrimônios e poderes de decisão.
Aliás, voltando à questão das drogas, parece-me que na história da humanidade, nunca lidamos de maneira tão imbecil com elas. Em sua imensa maioria as diversas civilizações e grupos de seres humanos que já existiram a usaram para o crescimento e expansão de suas percepções, sendo elas importante fonte alimentadora de conhecimentos e criações. Mas na nossa sociedade pós-moderna-sabe-tudo ela virou caso de polícia e/ou hospício. Vamos começar a falar sério ou vamos continuar tratando destas questões como conteúdos de um programa vespertino televisivo?

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Foi bom - Rubem Braga

Recebi sua carta com esse gosto de missiva, de coisa antiga e meiga, que para mim é seu gosto. Você rirá, tão bem instalada no mundo. Moderno você é, sabendo as coisas todas, já tendo lidado com gente de todos os vícios, conhecendo muitas receitas e todos os truques. Você sabe muito! Você é de uma geração de mulheres do Brasil que eu chamo de geração forte. Nem me digam que essas meninas que hoje começam a badalar por aí serão ainda mais fortes. Não sei. Conheço algumas, são diferentes; oscilando entre a análise de grupo e o sexo grupal, começam a  viver mais cedo, em todo caso me dão a inquieta impressão de que provam de tudo e não sabem de nada. Ah, minha amiga, que vontade de bater um papo longo com você, aquelas conversas de Ipanema, se lembra? — quando a tarde começava a descer e o rush dos pássaros sobre os terraços, ao longo do mar, passando com tanta pressa do Leblon para o Posto Seis nos fazia
pensar, meio tristes, que a noite não tardaria a chegar e breve seria a hora de você sair, me mandar um último sorriso antes de dobrar a esquina para pegar seu carrinho. Desculpe, agora que comecei a lembrar estou com saudade de tudo, até de seu carrinho — ah! nosso tempo era bom. Era bom.
No fundo é isto apenas que sua carta diz: era bom; foi bom. O que eu acho antigo e meigo é você ter me escrito apenas para dizer isto, e dizer com simplicidade de alma, sem remorso nem aflição: foi bom. Foi bom talvez porque, para começo de conversa, não aborreceu ninguém. Não quisemos que ninguém nunca soubesse nada — para, nem por acaso, ferir ninguém. É na verdade muito bom, saber que em um mundo de tanta tristeza nosso pequeno mundo conseguiu existir sem fazer triste ninguém, como se o pequeno apartamento boiasse em uma nuvem dourada, longe de tudo e de todos... pois sim, você dirá rindo, e aquele susto quando eu perdi a chave do carro! E aquele nosso conhecido que estava no bar da esquina — e aquela
amiga com quem eu esbarrei na calçada — e aquele seu amigo que bateu na porta um minuto depois de eu chegar?
É verdade, houve algum susto e perigo — mas quanto cigarro fumado com sossego, também! Quanta conversa comprida, largada, íntima, sem astúcia nem farol, nenhum de nós dois fingindo de inteligente nem de bacana — acho que tudo foi tão bom porque eu não queria mais nada de você e você não esperava mais nada de mim, nosso amor era uma estima — bem aconchegada, é claro, mas uma grande estima de corpo e alma, acho que pouco ou nada falamos de amor, e o fizemos bastante, não é? E nos amamos com uma certa honestidade, não foi? Ah, eu sou homem decente, eu sou de uma boa família de Cachoeiro de Itapemirim, e você para mim é a imagem mesma da mulher decente — vamos falar bem de nós dois? Merecemos. Nesse caso, pelo menos, um em relação ao outro, merecemos. Fomos bons. Foi bom. Muito obrigado pela cartinha. Adeus.
Maio, 1962